quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

INTERCAMBISTAS E SEUS BLÁ BLÁ BLÁ

Blá blá blá e mais blá blá blá.
Isso é o que se escuta o tempo todo das pessoas que fazem intercâmbio e para ser honesto, isso é tão chato.
É normal que todos mudem um dia na vida, afinal ninguém é um prego enfiado na parede para toda a eternidade, mas achar que todas as mudanças da vida acontecem porque você fez um intercâmbio, ai já é muito para a minha pessoa.
O que realmente acontece quando você decide fazer um intercâmbio é que, a partir do momento em que você embarcar no avião e zarpar rumo ao desconhecido, você dá o primeiro passo para viver fora da caixa em que você esteve guardado por muito tempo e para conseguir viver fora dessa caixa você tem que se adaptar a nova caixa e as regras que ela possui. Sim, você sai de uma caixa e vai para dentro de outra, a diferença é que nessa nova caixa você não conhece ninguém e ninguém te conhece, então muitos aproveitam essa oportunidade para extravasar e quem não era gay vira gay, quem nunca transou transa, quem nunca bebeu cai na rua de tão bêbado que ficou, tudo isso é absolutamente normal na vida de um intercâmbista e sendo assim, uma vida sem muitas explicações, as pessoas que optam por fazer um intercâmbio acreditam que mudaram a vida totalmente e que nunca mais serão as mesmas pessoas, oras, a vida muda o tempo todo e um intercâmbio é para ajudar nisso, mas será que essas mudanças são verdadeiras?
Vivendo longe do conforto de casa e tendo que preparar todo dia a nossa comida, claro que a gente aprende a cozinhar um pouco melhor, coisas da vida, mas e o retorno pra casa, você vai continuar cozinhando ou vai continuar esperando a mamãe deixar seu pratinho pronto e bonitinho te esperando?
Longe do conforto dos nossos veículos, nós aprendemos a andar de ônibus e caminhamos em uma semana mais do que caminhamos em toda a nossa vida, mas será que quando você retornar para casa vai continuar com os mesmos pensamentos que tem aqui? Vai continuar pensando que dois quarteirões é perto e que não irá precisar tirar o carro da garagem para comprar um leite na padaria? Vai continuar indo para a faculdade, que fica ali há 3 km da sua casa, a pé porque é ecológico e que menos carros na rua é melhor? Vai continuar indo para a balada a pé e voltando de táxi porque bebeu além da conta e beber e dirigir não combina?
Vai dizer que tudo mudou e que você esta totalmente mudado quando a única opção que você tem é mudar, mas a verdadeira mudança não acontece para que os outros possam ver, elas acontecem dentro de cada um de nós e só será chamada de mudança, se realmente colocarmos em prática tudo aquilo que aprendemos.
Os intercâmbistas dizem que mudaram e acredito que muitos tenham realmente mudado, mas é totalmente errado falar que você mudou estando do lado de cá, você deve afirmar e se orgulhar das mudanças do lado de lá, quando você voltar para casa e colocar em prática tudo aquilo que aprendeu e valorizar cada aprendizado, porque se isso não for feito, pra mim continuará sendo um monte de BLÁ BLÁ BLÁ.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

PÁGINAS EM BRANCO

E assim fui aprendendo que a vida é que, com o passar dos dias, as estórias vão sendo escritas e dando vida, cor e ritmo ao que somos hoje, assim nos tornamos pessoas.
Meu livro hoje conta com 32 capítulos muito bem vividos.
Muitas aventuras nos meus primeiros textos, afinal descobrir quem somos nunca é fácil.
Depois das aventuras vieram os dramas, é sempre difícil descobrir sobre sexualidade, aceitar as transformações do corpo e a aproximação com o sexo oposto, mas mais complicado ainda é se descobrir um adolescente gay em um mundo preconceituoso e intolerante; nada fácil, mas os dramas foram vencidos e ai os novos capítulos começaram a ser escritos novamente com uma pitada de aventura, mas não mais para descobrir quem eu era, mas para descobrir onde eu poderia chegar.
Longas viagens para descobrir quem seria amigo de verdade, quem nunca confiar e de quem esperar sempre o melhor.
Outras eternas viagens para saber por mim mesmo que drogas não são saudáveis e que tudo que meus pais falavam e falam sobre elas é a mais pura verdade, drogas não dão futuro pra ninguém, mas mesmo assim experimentei algumas vezes e as mais variadas opções, mas nem por isso me tornei um viciado e ou drogado, mas esses fatos constam no meu livro e quem ler somente essa página da minha vida, como um viciado drogado irá me apontar.
Passado a adolescência, percebi que a vida não poderia ser somente eu e mais ninguém, havia então a necessidade de ter um alguém para me acompanhar, para me dar a mão quando eu caísse e para que pegasse na minha mão quando estivesse caído, começou então a sessão romance, a busca por alguém, mas como encontrar alguém decente para compartilhar uma vida inteira? Me sentindo perdido e confuso com essa busca, meus textos passaram novamente é ter um conteúdo dramático e cheio de altos e baixos. São raras as pessoas na casa dos 20 anos que querem namorar sério, ainda mais sendo um namoro gay, então depois de muitas tentativas frustradas eu meio que acertei, digo meio porque terminou e se terminou é porque não era a pessoa certa. A busca então continuou e entre encontros e desencontros eu resolvi me aventurar novamente e mais uma vez mudar o rumo da minha estória. Malas prontas, bilhetes em mãos e lá vou eu, me jogar no desconhecido mais uma vez e começar tudo outra vez, redescobrir quem sou eu, fazer novas amizades, experimentar drogas e saber que elas não fazem bem mais um vez, brigar, discutir, xingar e muitas vezes chorar sozinho, no frio escuro do quarto por não ter alguém para pegar em sua mão e te ajudar a levantar de um tombo. Doeu e senti que nunca ninguém iria estar lá, ao meu lado para me dar a mão depois de um tombo. Fortaleci meu espirito e fechei meu coração, me dei como objetivo uma nova aventura, voltar para casa e recomeçar a reescrever minha estória, mas meu coração me enganou e se abriu para um novo romance e eis que aqui estou, imerso em uma paixão violenta e escrevendo mais capítulos nesse meu livro.
Hoje olho para as páginas em branco e sei bem o que quero colocar nelas, porém cada página deve ser escrita ao seu tempo, sem a pressa de um adolescente afoito para perder a virgindade e sem a serenidade do casal apaixonado que espera pelo final após 80 anos de casado, tudo deve ser escrito no seu ritmo, porque assim saíra bonito e bem contado.
Meus 32 capítulos estão ai, seguindo sendo sempre em frente. O que foi escrito foi um aprendizado do qual não me arrependo, muitos me julgam e me julgarão pela capa, outros farão a mesma coisa por lerem trechos soltos, mas os que lerem a estória toda e com atenção, esses sim estarão comigo até o final, porque conhecerão minhas lutas, minhas vitórias e derrotas e saberão que eu realmente sou.
Eu Paulo Roberto Maglia de Souza.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

DO LADO DE LÁ DA VIDA

Caminhei por entre os mortos e os vivos, senti frio, sede, fome e medo. Vi vidas sendo levadas de tantas maneiras que cheguei a conclusão de que não há um porque da própria vida. Me senti um nada em meio os escombros de uma guerra que eu mesmo havia criado.
Sofrer em vida não havia sido o suficiente para mim. Provocar a morte, a dor e a miséria era o que mais me excitava. Era feliz vendo o sofrimento de outrem. Era divertido ver pessoas se rastejando e implorando piedade de mãos duras e rígidas. Aquela dor me satisfazia de uma maneira tão intrigante que eu queria sempre mais e mais, a cada novo dia eu sai para caçar e fazer o medo se manifestar da maneira mais cruel possível. Eu tinha essa necessidade, esse desejo.
A vida me fez sorrir, porém a morte me fez agonizar por muitos e muitos anos; talvez bem mais do que eu queria e bem menos do que merecia.
Senti em meu corpo toda a dor que havia provocado. Tive medo. Sofri em mãos impiedosas. Fui tratado pior do que tratava meus animais. Fui tratado como um lixo, um nada.
O tempo foi passando e minhas feridas crescendo cada vez mais. Meu corpo já não suportava seu próprio peso. Me rasteja pela ruas imundas daquele cidade em que habitava. Bebi da mesma água que os porcos, comi do mesmo lugar que os cachorros. Chorei; chorei e adormeci. Sonhei com os tempos do exército. Meus soldados marchando no símbolo daquela capital. Havíamos chegado no topo. Subimos para a glória e para a purificação de uma história que estava se perdendo. Sorri e acordei em meio ao lixo. Chorei e pedi com o coração a salvação. Já não queria mais estar ali. Pedi piedade daquela mão que me açoitava. Pedi ajuda a Deus. Entreguei meu coração e minha vida nas mãos de Deus e foi a primeira vez em minha vida que fiz uma oração. Orei com fé e esperando algo bom acontecer. Orei e Deus me ouviu. Como que em um filme, vi a luz surgindo em meio a escuridão e duas jovens negras caminhavam em minha direção com um sorriso no rosto e as mãos estendidas. As jovens moças vestiam roupas claras e alegres, muito diferentes das que as mulheres em minha cidade eram obrigadas a usarem. Me senti constrangido por isso. Como poderiam pessoas negras me ajudarem depois de tanto mal que eu havia causado? Como poderiam? Chorei. As jovens moças me acolheram em seus braços e me carregaram para longe do lixo e da escuridão. Me levaram para um lugar cheio de luz e alegria. Trataram minhas feridas. Me alimentaram. Me deram água para beber. Adormeci.
Sonhei com anjos. Um voo sobre o planeta Terra em alta velocidade mas que me permitia ver claramente todos os males que ali estavam. Me senti culpado e comecei a voar cada vez mais e mais alto, até não ver mais a dor e o sofrimento que eu havia causado, mas eu sabia que fugir não iria mudar o que eu havia feito, a dor e o medo continuavam lá. Chorei e acordei.
Enfermeiros correram para me acalmar e me dizer que estava tudo tem, que era normal e que, se eu quisesse, eu poderia ajudar a transformar aquela situação um dia. Eis que os dias foram passando e hoje estou aqui, relatando um pouco sobre o que me aconteceu depois que desencarnei. 
Um dia terei que reencarnar novamente, mas enquanto esse dia não chega, eu vou estudando e aprendendo o que é o amor, a compaixão e a fraternidade. Descobri aqui que sim, somos irmãos e que não será a cor da pele, a nacionalidade ou a classe social que irá mudar isso. Aprendi que a paz é muito mais valiosa que qualquer guerra e que nenhuma guerra irá construir um mundo mais justo e nobre, pelo contrário, a guerra só ira romper as pontes que existem entre os povos e afundá-los na mais escura sombra de dor, medo e solidão.
Se o medo chegar, enfrente-o com amor. porque só o amor constrói.

P.S A luz guia todos aqueles que procuram sair da escuridão.


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

SE MUDEI??? SIM, E COMO MUDEI.

Minha estória atual começou assim:
24/10/2012 embarquei com destino a Dublin, Irlanda.
Cabeça trabalhando a milhão. Coração apertado por deixar família, amigos e amores. 
Plano inicial: 6 meses estudando inglês e depois viajar um pouco e voltar para a minha vida, a vida que eu tinha e que era suficientemente boa para eu pensar em me aposentar nela, porém a Irlanda mudou minha vida e os 6 meses iniciais se transformaram em 1 ano, então depois de um ano vivendo aqui eu iria embora, retomar minha vida e viver junto da família e amigos novamente.
Um ano se passou e eu decidi ficar mais um ano. Estudar e viajar era o meu plano, mas a saudade da família começou a apertar e após 1 ano e 6 meses estou eu lá, chegando no Brasil e correndo para o colo dos meus pais. Quantas lágrimas eu derramei rs. Lembro claramente como foi encontrar minha irmã no aeroporto e chorar de alegria. Meu cunhado e minha amiga. Como senti falta deles e como eles são importantes para mim.
Seguimos para a casa dos meus pais, eles não faziam ideia de que eu estava a caminho e quando cheguei foi um choque e tanto. Quanta alegria. Ver meus pais e meus sobrinhos, reencontrar amigos e me sentir em casa novamente. Foi um domingo de muita alegria. Me senti tão bem.
Os dias foram passando e a alegria de estar com minha família não tinha preço, porém eu sentia que não pertencia mais aquela cidade. Um ano e seis meses havia mudado tanto a minha vida e eu havia criado uma expectativa de que a vida lá também estaria diferente, que as pessoas também teriam mudado, mas não foi o que aconteceu.
Vi que todos continuavam na mesma vida, querendo ser algo que não são e tentando mostrar uma vida que eles não tem. Me senti mal com isso e totalmente deslocado. 
Pensei, será que eu também era assim?
Os dias foram passando e tentei ao máximo não mostrar o como eu estava me sentindo fora do meu habitat natural. Aquela vida não me pertencia mais e a saudade da minha vida na Irlanda estava começando a apertar.
Eis que chegou o dia de voltar para Dublin e retomar minha vida, estava feliz com o retorno, mas meu coração estava partido por deixar minha família novamente, me senti ficando órfão de pai e mãe, mas meu plano era concluir meu curso e depois de 6 meses voltar definitivamente para casa e recomeçar uma vida que já não sabia se eu ainda queria.
A chegada em Dublin foi espetacular, a cidade me recebeu de braços abertos e os 22 dias que havia passado no Brasil foram suficientes para ver uma Dublin diferente. Não sei qual foi a mágica, mas tudo sorria para mim naquele retorno. A minha vida esta seguindo.
O tempo foi passando e com isso as pessoas do Brasil foram se distanciando a cada dia mais. A família continuava lá, dando apoio para que eu continuasse seguindo minha nova vida e que, se fosse minha vontade, continuasse a viver aqui para todo o sempre. Muitos amigos foram se tornando colegas e de colegas passaram a ser conhecidos. Doeu, mas já não tínhamos mais a mesma sintonia. A minha felicidade é viver uma vida simples e boa e eles já pensam que a vida boa é ter luxo e dinheiro. Enfim, seguimos para o mar em rios separados.
Esses fatos me fizeram decidir por ficar em Dublin mais um ano. Estudar mais, viajar mais, conhecer pessoas novas e dar tchau para esse lugar maravilhoso em 12 meses. Minha meta era voltar para o Brasil em outubro de 2015, chegar antes do aniversário da minha amada avó e recomeçar uma vida totalmente nova da que eu tive um dia no Brasil. O plano era mudar para uma cidade onde eu não conhecia ninguém e lá começar a me reconstruir como brasileiro. Trabalhar para ter uma vida simples e boa. Criar amizades novas e verdadeiras. Comprar um cachorro. Esse era o plano, mas dia 27/10/2014 tive meus planos mudados novamente, mas dessa vez foi de uma maneira diferente, foi algo que fugiu do meu controle. Dia 27/10/2014 eu me apaixonei. 
Existe um meio para não se apaixonar? Acredito que não.
Ver aquele carinha cansada que, mesmo depois de uma longa viagem, sorria alegremente e caminhava em minha direção foi demais para mim. Sim, me apaixonei naquele dia, naquele momento e de uma forma avassaladora. Senti meu corpo estremecer. Sabe as borboletas no estomago? Nunca elas se mexeram tanto dentro de mim. Me senti feliz ali, naquele momento, sem ao menos ter falado oi.
O destino me pregou uma peça, porque saímos de Ribeirão Preto e viemos nos apaixonar aqui. Acredito que esse é um dos maiores sinais de que aqui é onde eu devo ficar.
Hoje comemoro um mês dessa paixão avassaladora e de um namoro que começou antes mesmo do primeiro beijo.
Meus planos hoje são outros. Já não conto 12 meses para voltar a viver no Brasil. Hoje eu só quero é ficar e seguir aqui, vivendo uma vida simples e cheia de coisas boas. Hoje eu só quero cultivar mais as verdadeiras amizades e deixar o amor crescer ainda mais. Hoje eu só quero continuar com a alegria que essa terra maravilhosa me escolheu e poder retribuir toda essa alegria.
Então o que posso dizer é isso: "Me apaixonei pela Irlanda e essa paixão foi crescendo a cada momento mais. Deixei me levar por essa paixão e foi por me deixar levar que me apaixonei novamente e dessa vez não foi por um lugar, dessa vez foi por um alguém, dessa vez foi por você. Sendo assim, eu devo dizer que FICO. Onde estou é meu lar e onde estamos é onde eu quero ficar."

P.S - As pessoas julgam os apaixonados até se apaixonarem, porque depois que se apaixonam são intensas e inconsequentes assim como eu sou. Comigo é sim, não sei ficar no meio termo, ou é tudo ou não é nada e agora eu estou vivendo com tudo essa paixão essa paixão ardente.



quinta-feira, 20 de novembro de 2014

MONÓLOGO DE UM SUICIDA

E eu me pergunto todos os dias, o que eu estou fazendo aqui?
Hoje completo mais um aniversário. Para muitos é um grande dia, para mim é apenas mais um dia como outro qualquer.
Você já parou para pensar que nós somos enganados por vários anos e que após completarmos 16 ou 17 anos, passamos a perceber que nossos pais nos colocaram na maior mentira já inventada?
Meus avós tiveram 11 filhos e criam muito bem os 11 filhos trabalhando de sol a sol nas lavouras da vida. Tanto meu pai, o famoso Dr. Luis quanto os seus outros 10 irmãos foram criados da mesma forma, com os pés no chão, correndo atrás de uma bola de couro surrada e tirando sempre a tampa do dedão. Todos são saudáveis e cheios de vida. Todos tiveram filhos. Todos disseram ao se casarem que dariam uma vida diferente da que tiveram para seus filhos e hoje estou aqui, emperrado em meio aos vários livros que, segundo o Dr. Luis, irão me dar um futuro melhor.
Não sei se o fato de não terem muito dinheiro quando eram crianças, não terem os melhores brinquedos e nem as melhores roupas levaram meus pais a projetarem tudo o que não tiveram em mim. Sou filho único e nem preciso dizer o quanto sou mimado. Tive de tudo. Os melhores brinquedos, vídeo-games, computadores, roupas. Fui para uma das melhores escolas da cidade. Pratiquei polo aquático e viajei várias e várias vezes. Fiz de um tudo nessa maravilhosa ilusão que meus pais pensam que é o melhor para mim.
Claro que eu não posso reclamar dos presentes ótimos que ganhei e nem dos lugares maravilhosos que conheci, porém os presentes sempre chegavam e eu sempre era obrigado a brincar sozinho, já que para meus pais "brincar na rua" era perigoso e não seria bom eu arrebentar meus pés jogando bola descalço na rua.
As viagens foram lindas, mas era sempre esperada a época do ano em que meus pais saiam de férias e para tentar amenizar a ausência dos outros 11 meses do ano, eles sempre me levavam para lugares lindos, mas nunca os que eu escolhia, engraçado né?
Então hoje. Exatamente hoje. No dia do meu aniversário eu decidi dar um basta nisso tudo. Chega de ser o brinquedo que meus pais não tiveram. Chega de usar as roupas que eles gostariam de ter usado e não tiveram a oportunidade. Chega de viajar para os lugares que eles sonhavam em conhecer e que eu nunca nem pensei em estar. Chega de ser o reflexo de pais frustrados com a infância "infeliz" que eles tiveram. CHEGA!!!!
Hoje eu quero ser EU.
Quero correr descalço na rua,
Quero tomar banho de chuva.
Quero brincar na calçada da vizinha,
Quero namorar a Lucinha.
Hoje eu quero ter a paz de um adolescente.
Quero rir,
Cantar,
Dançar.
Só hoje quero ser assim, EU.
Sendo assim queridos pais, hoje decidi morrer. Não quero ser o garotinho mimado, disciplinado e que irá se tornar mais um DOUTOR ocupado. Não quero também minha mãe, me tornar o empresário que irá trabalhar em turnos dobrados só para lucrar mais alguns trocados.
Não pensem que estou sendo ingrato, porque não é ingratidão. Apenas não quero ser o que vocês querem que eu seja, porque a vida é tão curta para não se dar valor ao que mais importa. A vida é curta para não se amar a simplicidade de viver com alegria espiritual, porque o material a gente perde e como perde.
Obrigado meus amados pais pelo que tentaram fazer por mim, sei que trabalharam muito para me dar o que vocês julgavam melhor, mas nesses meus 18 anos o que mais precisei foi a presença de vocês, foi poder ouvir de vocês uma palavra amiga, um conselho e até umas broncas a mais. Eu precisei de pais presentes e não de presentes dos pais.
Meu recado então é esse: não tentem transformar seus filhos naquilo que você gostaria de ter se transformado, eles não são vocês e tentar transformá-los nos seus fracassos só irá transformá-los em pessoas frustradas. Ame-os e deixe-os viver. Afinal seus filhos não são seus filhos, são filhos do mundo.
Esse será meu último gole. Talvez eu agonize um pouco, mas logo estarei do lado de lá.
Adeus. Sempre os amarei.
Eternamente.
Lucas.


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

D.F - DIAS FELIZES SEMPRE

A vida é engraçada e nos prega cada peça...
Dois anos atrás, quando decidi vir morar em terras desconhecidas, jamais imaginei o quanto minha vida iria virar de ponta cabeça e não ela que ela virou tantas e tantas vezes que eu já nem sei mais qual é o lado certo da minha vida.
Há dois anos eu deixei muito mais que meu país, há dois anos eu deixei família, amigos e uma vida construída com muita luta e abdicação, deixei o conforto e a segurança do meu lar para viver o inesperado, para viver o novo, para me descobrir. 
Descobri um novo eu, mais tolerante com muitas coisas e totalmente sem paciência para muitas outras. 
Descobri o quanto o mundo é racista, mas o que mais me doeu foi ver que a maioria do racismo que vi vinha do meu próprio povo.
Descobri a dor da injustiça e aprendi que ser honesto não tem preço e que isso te abre portas seja onde for.
Descobri o significado da verdadeira amizade e que os verdadeiros amigos são anjos colocados nas nossas vidas por Deus.
Descobri que a religião não esta em um templo feito com ouro e grandes muralhas, descobri que a religião não pede por ostentação e que o lugar de maior concentração de fé esta dentro de nós mesmo, esta dentro de nossos corações.
Descobri que podemos amar quantas vezes quisermos amar, porque Deus nos deu esse dom e amar nunca será demais para um coração.
A vida me trouxe tanta coisa, tantas pessoas, tantos amores. A vida me sorriu e me mostrou o lado bom de viver.
Engraçado falar em viver, porque fui aprender a viver depois de completar 30 anos de idade. Antes eu sobrevivia em meio ao caos, tendo que estudar, trabalhar e ainda tentar ter uma vida social. Hoje tudo corre tranquilo, continuo trabalhando, estudando e tendo uma vida social, mas hoje tenho tudo com isso com qualidade, porque a vida me ensinou a gerenciá-la e hoje sou o responsável pelo meu tempo. falando de tempo, eu não o desperdiço mais com coisas bobas e mesquinhas, a vida é curta para se preocupar com problemas que não nos levarão a lugar algum e eu não quero ter cabelos brancos por pensar em algo que não me acrescentará em nada e se não me acrescenta, eu deixo o vento levar... levar para longe...
A vida é assim, cheia de reviravoltas. Ainda bem que ela é assim. Hoje estou do lado que deveria estar e o engraçado, é que eu estou amando esse lado!!!
D.F - Dias Felizes...


domingo, 7 de setembro de 2014

ALAMEDA BOTAFOGO - PARTE 5/5

Uma triste melodia chegava até a pequena sala na Alameda Botafogo.
O canto triste era entoado por uma pequeno pássaro preso em um relógio cuco.
A sala estava organizada, tudo havia sido recolocado em seus devidos lugares e Larissa, que continuava deitada no chão, observava o teto com um olhar perdido e sem brilho.
O pequeno pássaro continuava a cantar sua triste melodia. O sol se escondia lentamente e as luzes dos postes começavam a se acender.
Larissa se levantou lentamente, seu corpo doía. Olho para as cortinas e elas dançavam com a brisa que o anoitecer trazia. Caminhou até as cortinas e abriu para respirar um pouco de ar fresco; viu várias crianças brincando no playground e um pouco mais distante esta Diorgenes, sentando em uma mureta com uma faixa na cabeça.
- Eu o conheço de algum lugar? - disse para si mesma.
Diorgenes olhou para a janela do terceiro andar por alguns instantes e voltou sua atenção para o livro que possuía nas mãos.
Larissa caminhou até o relógio cuco e abriu a portinha onde estava preso o pequeno pássaro, estendeu sua mão para pegá-lo, mas foi surpreendida com uma bicada do pássaro que voo pela janela cantando sua triste melodia. Larissa observou o pássaro voar e sentiu vontade de fazer. Cortou a tela de proteção, subiu em sua janela e se jogou para a eternidade em um voo sereno. Sentiu o vento tocar seu rosto. A sensação de liberdade ao voar era impressionante, Larissa sorriu e bateu ainda mais suas asas, subindo cada vez mais e mais. Viu ao longe o sol se pondo entre colinas e dominando o horizonte com suas cores quentes e forte, Larissa sorriu novamente, observou parada no ar o espetáculo que a natureza estava proporcionando.
Larissa bateu suas asas novamente e subiu mais e mais. Subiu livre de medos e anseios. Subiu para olhar as estrelas, queria tocá-las. Bateu suas asas ainda mais forte e mais rápido, as estrelas estavam logo ali, Larissa quase podia alcançá-las, era questão mais algumas batidas de asas e lá estaria ela, tocando as estrelas como sempre sonhara. E Larissa bateu suas asas mais e mais forte, mas as forças estavam se acabando. Esticou seus braços para tocar as estrelas, mas suas mãos não alcançaram e elas começaram a ficar longe, cada vez mais longe. O vento começou a soprar forte em seu rosto. Viu vários pássaros voando ao seu redor. Eles cantavam.
- Por que vocês cantam?
Eles continuaram a cantar em volta de Larissa que chorando começou a cantar. A triste música que Larissa conhecia tão bem agora era cantada por ela própria e acompanhada por vários pássaros que a seguiam nesse momento.
Larissa continuou a canção. Começou a sentir frio e a relembrar os velhos tempos de escola. Lembrou também da família e de vários almoços que perdera. Lembrou dos amigos, ex-namorados. Lembrou das vizinhas e das viagens que havia feito. Lembrou do seu vestido de debutante. A formatura havia sido um sucesso. Lembrou do seu primeiro amor. Lembrou-se de quem era, mas já não havia mais tempo.
- SOCORRO! SOCORRO! SOCORRO! - começaram a gritar as crianças no playground.
Diorgenes correu para junto do corpo de Larissa, mas já não havia mais vida ali. Escutou as sirenes ficarem cada vez mais fortes e viu as luzes vermelhas chegarem.
- Abrão espaço! Abrão espaço! - dizia uma voz feminina.
- Ela caiu moço - disse uma criança para o paramédico - ela caiu da janela.
O paramédico olhou pela janela e viu a cortina dançar levemente com a brisa daquele anoitecer.
- Já não há mais o que fazer aqui. - disse a voz feminina mais uma vez.

- Rubens, encontrei uma carta aqui na cabeceira da cama e esta endereçada para... Senhor dos tempos.
- Senhor dos tempos? Quem é esse individuo? - perguntou Rubens - leia por favor.

"Já não há mais tempo para viver, porque viver nos toma muito tempo e nós não temos tempo para isso.
Não quero ser a pessoa que irá tomar o seu tempo tentando viver em um tempo em que é muito importante ter um tempo para se ter um tempo. Tanto tempo que gastamos pensando em como viveríamos se tivéssemos tempo para viver, mas não temos mais esse tempo pra perder.
O tempo é precioso e por isso somos tão pobres espiritualmente, porque nunca temos tempo.
Não temos tempo para os amigos, não temos tempo para os namorados e familiares, não temos tempo para nós.
Sinto falta do tempo em que o tempo era desfrutado. Sinto falta do tempo em que matar o tempo era bom, gostoso. Sinto falta do tempo em que arrumávamos tempo para conversar sobre o tempo que passou, sobre o tempo em que vivíamos e o sobre o tempo que estava por vir. Sinto falta desse tempo.
Sendo assim Senhor do tempo, peço que me arrume um tempo dentro de pouco tempo e que seja um tempo bom, um tempo pra mim."